Por Equipe JK

Atenção: esta crítica tem spoilers pesados de “Sangue e Ossos”, último episódio de The Boys.

Vou começar essa crítica com uma frase que vai irritar metade dos fãs: o final de The Boys não é bom porque o Capitão Pátria morre. Pelo contrário, o final é bom porque o Capitão Pátria morre cedo. O episódio acerta justamente porque entende que matar o vilão nunca foi o ponto.

Saí do episódio com aquela sensação esquisita de quem viu a coisa certa sem sair feliz e aposto que era esse o plano do Eric Kripke. Sangue e Ossos é uma despedida suja, sem aquele final bonito que toda série tenta entregar.

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Matar o Capitão Pátria na metade do episódio foi a melhor escolha

Toda série de super-herói te treina para esperar a luta final. É o último round, o discurso, a explosão, e os créditos sobem. Kripke faz o contrário: o Capitão Pátria morre aos 30 minutos. E não morre num combate épico, morre sem poderes, chorando, implorando para viver na frente de uma câmera ao vivo, com um pé de cabra atravessando o crânio.

Ler isso parece pesado, ver é pior e é exatamente esse o ponto. Antony Starr passou cinco temporadas montando um vilão que se achava deus. Quando esse “deus” é jogado no chão pela explosão da Kimiko e vira um humano comum, o que sobra é um adulto-criança quebrado.

A câmera não dá para ele a dignidade de uma morte heroica nem o estilo de uma morte bonita. É feio, é demorado, é constrangedor. É a morte que ele merecia, e que espelha cada morte que ele causou. Quando acaba, ninguém comemora. Nem o Butcher. Nem o Ryan. Nem a gente.

E aqui tá o recado do episódio: derrubar o vilão não conserta o mundo. A Vought continua em pé. Stan Edgar volta. Soldier Boy continúa congelado, esperando. Kripke pega a fantasia de toda história de super-herói (a de que matar o tirano resolve tudo) e responde com uma pergunta cruel: e daí?

Butcher era o vilão o tempo todo

A segunda metade do episódio é a melhor coisa que The Boys já fez. Depois que o Capitão Pátria morre, Karl Urban tem uma cena com o Ryan que muda tudo o que a gente viu desde 2019. O moleque olha para o Butcher e fala: o seu inimigo ser ruim não te faz ser bom.

É a coisa mais corajosa que The Boys já disse. Porque a série inteira foi montada em cima da gente torcendo pelo Butcher. A gente perdoou tortura, perdoou manipulação, perdoou ele usando o próprio filho da Becca como arma. A gente justificava porque o Capitão Pátria era pior. O Ryan, com uma frase, derruba esse argumento todo.

E aí vem a sequência que define a série. O cachorro Terror morre dormindo. Butcher fica sem família, sem inimigo, sem motivo nenhum. E decide que a missão dele nunca foi matar o Capitão Pátria. A missão era matar todos os Supes. Ele pega o vírus, vai para Torre Vought, e tenta cometer um massacre.

É aqui que a série solta uma bomba que poucas franquias têm coragem de soltar: o herói era tão monstro quanto o vilão. Ele só não tinha capa. E o Hughie, o Hughie, o nerd nervoso da primeira temporada, o cara que mal segurava arma, precisa puxar o gatilho contra o amigo.

Aquela sensação de vazio? É proposital

A temporada inteira foi sobre um país tomado por um maluco, e Kripke escreveu isso bem antes da eleição americana de 2024. Quando o Capitão Pátria cai e Ashley Barrett sofre impeachment no minuto seguinte por ter ajudado a salvar a democracia, a série não tá sendo amarga à toa.

Tá dizendo que país quebrado não se conserta com a morte de uma pessoa. Tá dizendo que toda a violência do Butcher, tudo o que a gente comemorou nessas cinco temporadas, custou tanto quanto valeu.

É um recado pesado demais para uma série? Provavelmente. É por isso que funciona.

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Onde Sangue e Ossos poderia ser melhor

Não é um final perfeito. Algumas mortes secundárias são fracas. Ó Pai morre com um brinquedo sexual, que é engraçado, mas descartável. E Profundo, empalado por tentáculos depois da Luz-Estrela jogar ele no mar, é tão exagerado que beira o desenho animado.

O orçamento aperta. O ataque à Casa Branca devia ser épico, mas se resolve em corredores fechados e na Sala Oval, com poucos figurantes. Dá para sentir The Boys fazendo escolhas econômicas onde queria fazer escolhas grandes.

Tem também o problema do final aberto. Stan Edgar voltando para Vought, Soldier Boy ainda congelado, Gen V ainda vivo, Vought Rising já confirmada para 2027, tudo isso tira um pouco do peso da despedida.

Você quer chorar com o Butcher e a série já tá avisando que a franquia continua. É o tipo de capitalismo que a série sempre criticou se devorando.

Veredito

Tem uma coisa que poucas séries conseguem: terminar fiel ao que ela sempre foi. Lost prometia mistério e entregou fé e Game of Thrones prometia complexidade e entregou pressa.

The Boys, do primeiro ao último episódio, prometeu uma coisa só: que o poder corrompe, que heróis são mentiras que a gente conta para si mesmo, e que ninguém sai limpo. Sangue e Ossos cumpre isso até o último segundo.

Nota: 9,5/10

The Boys está disponível no Prime Video.

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