Por Equipe JK
Ver uma casa de São Paulo como o Evvai conquistar esse reconhecimento mostra que o Brasil vem ocupando um espaço cada vez mais relevante na alta gastronomia
Poucos restaurantes conseguem transformar uma refeição em uma narrativa tão bem construída quanto o Evvai, na cidade de São Paulo. Sob o comando do chef Luiz Filipe Souza, a casa vive um momento histórico. Inaugurado em 2017, o restaurante conquistou sua 1ª estrela Michelin em 2019, chegou à 2ª estrela em 2024 e, agora, na edição 2026 do Guia MICHELIN Brasil, foi coroado com três estrelas, entrando definitivamente para um capítulo importante da alta gastronomia brasileira.



Tive a oportunidade de viver essa experiência em um momento ainda mais especial: logo na semana em que o Evvai recebeu a 3ª estrela. Havia ali uma atmosfera diferente, uma mistura de celebração, orgulho e reconhecimento (não apenas pela conquista em si, mas por tudo o que ela representa para a gastronomia nacional).
O menu degustação da casa se chama “Oriundi”, palavra que já entrega parte da essência do restaurante. A proposta de Luiz Filipe parte de suas raízes italianas, mas não se limita a elas. O que aparece à mesa é um encontro muito bem costurado entre referências da Itália e ingredientes, memórias e interpretações brasileiras. É uma cozinha de identidade, técnica e sensibilidade, que não busca apenas impressionar, mas contar uma história.
Talvez esse seja um dos pontos mais interessantes da experiência. Ao longo do menu, ingredientes brasileiros aparecem com protagonismo e elegância, como o açaí, o palmito pupunha e outros elementos que ajudam a construir uma linguagem própria. Não é uma cozinha italiana reproduzida no Brasil, mas uma cozinha que entende suas origens e, ao mesmo tempo, olha para o território onde está inserida.


Essa relação aparece também em algumas releituras muito bem pensadas. A picanha, por exemplo, surge em uma interpretação autoral, distante do óbvio, mas ainda conectada a uma memória muito brasileira. Outro momento marcante do menu é uma espécie de cappuccino de bacalhau servido com caviar, um prato que chama atenção tanto pela apresentação, quanto pela combinação de sabores, textura e intensidade.
A experiência acontece em formato de menu degustação, com valor de R$ 1.650 por pessoa, e pode ser acompanhada por diferentes opções de harmonização.


No meu caso, escolhi a “Harmonização Magna”, no valor de R$ 2.250 por pessoa, conduzida , sommelier da casa. A seleção foi um dos pontos altos da noite especialmente pela forma como cada vinho dialogava com os pratos. Em alguns momentos, grandes clássicos apareceram com muita precisão, elevando ainda mais a experiência.
Desde a chegada até a despedida, o atendimento é cordial, seguro e extremamente bem conduzido. Existe uma elegância natural na forma como a equipe apresenta o menu, serve os pratos e cria uma relação com a mesa, de uma forma em que nada parece engessado. Tudo acontece com ritmo, cuidado e atenção aos detalhes, algo essencial em uma casa desse nível.
Outro ponto interessante são as sobremesas, assinadas , chef pâtissier do Evvai. A confeitaria da casa vai além do encerramento doce do menu, e é vista como uma continuação da experiência. São preparos delicados, técnicos e criativos, que mantêm a mesma linha narrativa do jantar: elegância, identidade e muita precisão.


Entre elas, uma das que mais chamaram atenção foi uma sobremesa que remetia ao clássico mamão papaia com cassis. A referência é conhecida, afetiva e muito presente na memória de muitos brasileiros, mas aparece ali com outra leitura, mais refinada, técnica e contemporânea.
Bianca também carrega um reconhecimento importante, tendo sido eleita “Latin America’s Best Pastry Chef 2025” pelo Latin America’s 50 Best Restaurants, o que reforça ainda mais a força do time da casa.
Além das três estrelas Michelin, o Evvai se destaca nas principais listas internacionais: atualmente, ocupa a 20ª posição no Latin America’s 50 Best Restaurants 2025 e aparece em 95º lugar no The World’s 50 Best Restaurants 2025, dentro da lista global ampliada dos 100 melhores restaurantes do mundo. Esses reconhecimentos reforçam o momento especial da casa e colocam o restaurante entre os nomes mais relevantes da gastronomia brasileira no cenário internacional.
Ao final da experiência, ficou claro que o Evvai chegou às três estrelas por consistência. O menu tem uma identidade muito bem definida, o serviço acompanha o nível da cozinha e cada etapa parece pensada para construir uma narrativa, sem perder naturalidade.

O Evvai representa um momento importante para a gastronomia brasileira, e ver uma casa de São Paulo conquistar esse reconhecimento internacional mostra que o país vem ocupando um espaço cada vez mais relevante no cenário da alta gastronomia.
E acompanhar isso de perto, logo na semana da conquista, tornou a experiência ainda mais especial.
*Neto Costa é criador de conteúdo no Do Chef à Mesa, idealizador do Comer Bem, o primeiro prêmio gastronômico de Ribeirão Preto, e criador do canal Neto Costa Explora, no YouTube. Entusiasta de experiências gastronômicas, vinhos e viagens
