Por Equipe JK

Estreou na Netflix a minissérie Brasil 70: A Saga do Tri, e ela chegou num momento praticamente perfeito: com a Copa do Mundo de 2026 batendo à porta, o país está novamente de olho na Seleção.

A série é bonita, emocionante e tecnicamente impressionante. Mas, desde o primeiro episódio, ela deja claro que não é um documentário. É ficção baseada em fatos, e a linha entre esses dois territórios é mais tênue do que parece.

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Um Pelé relutante em voltar à Seleção

Um dos pilares da minissérie é mostrar um Pelé cheio de dúvida, e isso é fato. Depois do trauma de 1966, na Copa da Inglaterra, ele foi literalmente chutado para fora do torneio e saiu do Goodison Park carregado, em lágrimas, dizendo publicamente que não jogaria mais uma Copa.

Não era papo de vestiário. Ele repetiu isso várias vezes em entrevistas. A ESPN recuperou uma declaração direta do rei: “O motivo pelo qual eu disse que não ia jogar [pela seleção] foi por causa da minha lesão na Copa de 1966.”

A série captura esse peso com precisão. Lucas Agrícola entrega um Pelé que o público nunca viu: não o monumento, mas o homem que precisava decidir se ainda valia a pena.

João Saldanha vs Médici

Rodrigo Santoro interpreta um treinador que era jornalista de profissão, comunista declarado e nunca escondeu nada disso, mesmo durante a fase mais dura do regime militar. Saldanha foi nomeado técnico da Seleção em 1969, classificou o Brasil para a Copa com seis vitórias em seis jogos.

Saldanha enfrenta Médici pela convocação de Dadá Maravilha e diz a frase famosa: “O presidente escolhe os ministros, eu escolho os jogadores”, sendo demitido menos de três meses antes de a Copa começar.

O que a série adiciona é o que acontecia nos bastidores dessas tensões, onde esses trechos foram recriados. O conflito com o regime militar, a recusa em escalar Dadá Maravilha por pressão presidencial, a incompatibilidade entre um comunista e um governo de direita que tentava usar a Copa como vitrine, tudo isso é verdade.

Zagallo e a herança incômoda de um título que não era dele

Bruno Mazzeo tem um dos trabalhos mais delicados da série: interpretar Mário Zagallo, o homem que herdou uma equipe pronta e levantou a taça. A minissérie não o trata como vilão, mas também não o poupa da pergunta que o perseguiu por décadas: quanto daquela conquista era mesmo dele?

Historicamente, Zagallo foi um profissional competente que chegou numa situação impossível e entregou o resultado. Ele manteve o esqueleto da equipe montada , fez ajustes táticos inteligentes e não tentou reinventar o que já funcionava.

O que a série explora: a insegurança, a pressão de suceder alguém que havia sido afastado, a necessidade de ganhar a confiança de jogadores. A série também mostra militares armados em cena de fundo no México, Importante destacar que não há registro histórico de soldados brasileiros circulando pela concentração no México dessa forma.

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Os jogos: onde a ficção encontra o arquivo

Nas partidas, a série opera num terreno mais seguro. Os resultados são fatos históricos: o Brasil chegou à final e venceu a Itália por 4 a 1. Os gols, as jogadas clássicas, a escalação, tudo registrado.

O que os Morelli fizeram foi oferecer algo diferente: em vez de reproduzir as imagens de arquivo com câmeras distantes e qualidade dos anos 70, eles optaram pelo ponto de vista dos jogadores em campo.

A decisão foi explicada pelo próprio Paulo Morelli: as câmeras de 1970 eram muito distantes e a imagem, muito ruim. A solução foi criar uma perspectiva imersiva, quase em primeira pessoa, que o arquivo jamais poderia oferecer.

O contexto político: real demais para inventar

O regime de Médici como pano de fundo não é dramatização, é história documentada. O governo militar investiu pesado na Copa de 1970 como instrumento de propaganda, construiu estádios, encheu o noticiário e usou a conquista como narrativa de unidade nacional num período de censura, prisões e tortura.

A ironia que a série captura com cuidado, um time montado por um comunista sendo apropriado pela ditadura, é real. O que Saldanha disse ao jornal francês Le Monde sobre as prisões e torturas no Brasil, ainda com o torneio em andamento, está documentado.

O Fantasma do Maracanazo

Na véspera da semifinal contra o Uruguai, a série mostra como o trauma da Copa de 1950 ainda pesava sobre a Seleção. Félix passa a ver o “fantasma” de Barbosa nos treinos e no vestiário, enquanto outros sinais de azar surgem ao longo do episódio.

O tratamento é bastante exagerado e aposta em elementos quase sobrenaturais, como os espelhos quebrados e Zagallo deixando a concentração para consertar a imagem de seu santo de estimação.

Essas cenas funcionam como uma metáfora para a pressão psicológica enfrentada pelo elenco, mas não têm base nos registros históricos. É o episódio em que a série mais se afasta dos fatos para reforçar o drama.

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