Por Equipe JK

Tem um certo tipo de animação que você não assiste, você habita. Aquelas em que cada cena parece ter sido construído à mão, onde os personagens carregam textura, peso e imperfeição, como se recusassem a ser polidos demais para o mundo deles. Sou a Frankelda é exatamente esse tipo de filme.

O longa chegou à Netflix carregando um feito histórico nas costas que, sozinho, já justificaria uma sessão: é a primeira produção de stop motion de longa-metragem já realizada inteiramente no México.

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A história por trás dos monstros

É o México do século XIX. Francisca Imelda é uma jovem escritora que vive para criar histórias de terror: criaturas, pesadelos, mundos impossíveis que ela rabisca às escondidas depois que a avó severa vai dormir.

Suas histórias são ignoradas pelos editores da cidade, descartadas com o tipo de desdém que mulheres com imaginação reconhecem há séculos. Mas o que Francisca não sabe é que os monstros que ela inventou existem de verdade, num reino paralelo chamado Topus Terrenus, e que precisam dos pesadelos humanos para sobreviver.

É quando entra o Príncipe Herneval, uma figura alada e melancólica que conhece Francisca desde a infância e vai até ela com um pedido desesperado: venha ao nosso mundo, escreva para nós, salve o equilíbrio entre ficção e realidade.

Stop motion que para o tempo

Tecnicamente, o filme é de cair o queixo. Os irmãos Ambriz construíram cenários de arquitetura barroca gótica que parecem desafiar qualquer noção de orçamento modesto, e o fizeram quadro a quadro, com o tipo de paciência que a animação digital apagou da memória.

Há no visual uma mistura de influências declaradas: as pinturas de Gustave Doré e Remedios Varo, os fantoches de Jim Henson, a estética de Guillermo del Toro, que foi mentor dos diretores ao longo do projeto e declarou publicamente que o filme é “um triunfo de visão, tenacidade e amor pelo ofício”.

O filme não para no stop motion convencional. Em determinados momentos, ele se abre para pinturas em óleo animadas, desenhos em papel e composições expressionistas que parecem sair diretamente de um livro ilustrado do século XIX.

Mais do que “para crianças”

É o tipo de animação que muita gente descarta pela aparência e depois se surpreende com a maturidade do que encontra. Por trás da aventura, a narrativa discute com naturalidade temas como o apagamento de vozes femininas, a insegurança daqueles que veem sua influência ameaçada e o receio de criar algo novo sob o olhar crítico dos outros.

Nada disso é apresentado de forma artificial. As ideias surgem dos próprios conflitos da história, dando ao filme uma camada de profundidade que vai muito além do que sua embalagem sugere.

Não é um filme perfeito. Em alguns momentos, a ambição dos irmãos Ambriz acaba pesando sobre a narrativa. Há muitos personagens, muitos núcleos e algumas subtramas que disputam espaço na mesma história. Ainda assim, são falhas que surgem do excesso de ambição, não da falta dela.

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Por que vale assistir?

Sou a Frankelda chegou à Netflix após uma trajetória de destaque em festivais, acumulando reconhecimento e indicações pelo caminho, incluindo uma nomeação ao Annie Award de Melhor Longa Independente de Animação.

Mas o que torna o filme especial vai além de seu currículo. Embora carregue o peso de uma conquista histórica para a animação mexicana, a obra se sustenta por mérito próprio.

A jornada de Francisca Imelda, uma jovem escritora cujas histórias começam a ganhar vida de maneiras inesperadas, possui força e identidade suficientes para conquistar o público sem depender da importância de sua produção nos bastidores.

Se Coraline marcou sua infância, se a fantasia gótica e emocional de Guillermo del Toro encontra espaço entre seus filmes favoritos ou se você acredita que animações podem ser tão profundas quanto qualquer drama live-action, Sou a Frankelda tem tudo para conquistar você.

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