Por Equipe JK

Atenção: o artigo abaixo contém spoilers de Dia D.

Eu saí da sessão de Dia D com aquela sensação dupla que só Steven Spielberg consegue provocar: encantado com a condução e, ao mesmo tempo, com uma lista mental de perguntas sem resposta.

O cineasta volta ao tema que persegue há cinco décadas (a vida extraterrestre) em uma superprodução mistura caixa de mistérios com filme de perseguição. E, justamente por apostar mais no idealismo do que nas regras do próprio universo, deixa vários pontos soltos pelo caminho.

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Sobre o filme

A trama acompanha o gênio matemático Daniel Kellner, vivido por Josh O’Connor, e a meteorologista Margaret Fairchild, papel de Emily Blunt, que descobrem uma conexão em comum com alienígenas na Terra.

Ao lado de Hugo Wakefield, interpretado por Colman Domingo, os dois tentam revelar ao mundo décadas de provas escondidas, enquanto a organização secreta Wardex, comandada pelo personagem de Colin Firth, faz de tudo para impedi-los.

Qual é a dos animais estranhos?

Quem viu o trailer já conhece a imagem: cervos encarando Daniel pela janela como se estivessem possuídos. O padrão se repete o filme inteiro, com pássaros e raposas em momentos-chave, e só ganha explicação no terceiro ato.

Quando Margaret finalmente acessa a memória da abdução que sofreu aos 10 anos, Hugo revela que os alienígenas assumem a forma de animais terrestres para parecerem menos assustadores diante dos humanos.

Faz sentido dentro da lógica interna. Margaret usa os poderes que recebeu dos visitantes para criar ilusões na mente das pessoas: ela não muda a realidade, muda a forma como o observador enxerga.

Como os aliens parecem dominar a mesma técnica, os animais seriam o mesmo truque psíquico aplicado em escala. É das poucas pontas que o filme amarra direito.

Margaret e Daniel foram abduzidos juntos?

O flashback orquestrado , de mãos dadas, recebendo seus poderes.

Só que nunca vemos Daniel sendo levado de casa, como acontece com Margaret. O filme quer que a gente aceite no valor de face: os dois foram operados ao mesmo tempo, no mesmo lugar, o que explicaria por que eles se acham familiares um ao outro desde o primeiro encontro.

O problema é que nunca ouvimos o lado de Daniel, e toda a explicação sobre o comportamento dos aliens vem da boca de Hugo. O filme trata esse relato como verdade absoluta, mas quando o assunto é gente mexendo na mente dos outros, eu ficaria com um pé atrás.

Como funciona o “mergulho”?

Um dos conceitos mais malucos de Dia D são os artefatos alienígenas em formato de pino guardados pela Wardex. Quando Daniel foge com um deles e com o arquivo completo de imagens extraterrestres, Noah Scanlon, o vilão de Firth, se conecta a um equipamento médico, aperta um dos dispositivos e “se entrega” a ele.

Isso permite que ele entre na mente de Jane, a namorada de Daniel vivida por Eve Hewson, e fale com ela como se estivesse ali. Os limites desse poder nunca ficam claros. Em alguns momentos, os movimentos do corpo de Scanlon são espelhados diretamente nela; em outros, parece mais persuasão do que controle.

Considerando como os poderes de Margaret funcionam, a segunda opção me parece mais plausível. O filme também estabelece que o mergulho não funciona em “experienciadores” (pessoas que já tiveram contato alienígena e foram alteradas psiquicamente), caso de Daniel e Margaret. O termo no plural sugere que existem outros por aí, mas essa porta fica só entreaberta.

Por que os aliens falam por matemática?

Aqui o roteiro começa a desandar. Daniel recebe dos aliens a capacidade de compreender a matemática mais complexa do universo, não para revolucionar a ciência, mas para traduzir a língua alienígena. Que é… matemática. Na prática, os cliques e zumbidos dos visitantes seguiriam algum algoritmo universal que só ele consegue decifrar.

Spielberg já brincou com comunicação assimétrica antes: o final de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, com humanos conversando com a nave através de música, é uma das cenas mais icônicas da carreira dele.

Mas em Dia D o truque soa fraco. Se os aliens conseguem mergulhar na mente humana, para que precisam de um tradutor específico? O filme nunca responde, e a sensação é de que a regra existe só para justificar a presença de Daniel na trama.

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Por que a Wardex deixa os dois escaparem?

A cena do resgate na base aérea é eletrizante: Margaret atravessa a segurança lendo a mente dos guardas, desorienta Scanlon aparecendo como pessoas queridas dele e tira Daniel de lá.

Bonito, mas aí os dois entram no carro e simplesmente vão embora, sem drone, sem helicóptero, sem o portão ser fechado. Apenas um capanga ressentido sai em perseguição.

A única explicação possível é que o efeito psíquico dos poderes de Margaret deixa os alvos atordoados por um bom tempo, algo que o clímax na emissora KCXE reforça, quando as pessoas obedecem a ela sem entender o motivo. Ainda assim, convenhamos: ela está dirigindo um Alfa Romeo vermelho. Era só mandar mais gente atrás.

Como aquele alienígena chegou a Kansas City?

No momento em que a KCXE transmite o arquivo alienígena para o mundo, surge um convidado de última hora: um alien de verdade, aparentemente muito velho, que fala ao planeta através de Daniel e Margaret. E ninguém explica de onde ele veio.

Os homens que o escoltam são da Wardex? Scanlon, arrependido, mandou buscá-lo? Se sim, como a criatura cruzou meio país em minutos? A leitura mais lógica é que Hugo mantinha o alienígena escondido o tempo todo. Mas isso nunca é dito, nem por ele, nem pela Wardex ao listar o que foi roubado de suas instalações.

E aqui mora a contradição: Scanlon fica desesperado para recuperar o arquivo e o artefato, mas não menciona nenhum alien desaparecido. Talvez seja um visitante que Hugo encontrou por conta própria e manteve em segredo. É muita teoria para tapar um buraco que o roteiro deveria ter fechado sozinho.

A casa reconstruída é o maior furo do filme

Logo na primeira aparição de Hugo, sua equipe já está erguendo uma réplica da casa de infância de Margaret. Detalhe: nesse ponto da história, ele ainda não sabe quem ela é, tanto que só a encontra depois que o vídeo dela falando a língua alienígena viraliza. Então de quem é a casa que ele está construindo?

Quando Margaret chega ao local, fica impressionada com a precisão, até nos detalhes do próprio quarto. A única saída interpretativa é que Hugo trabalhava em contato direto com os aliens, que guiaram a reconstrução.

Mas se ele consegue falar com eles, por que Daniel é tão essencial? E por que não procurar Margaret antes? Para mim, este é o furo mais inexplicável do filme, e olha que a recepção tem sido majoritariamente positiva.

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Afinal, por que os aliens escolheram Daniel e Margaret?

A grande pergunta exige raciocínio reverso. Daniel só é contratado pela Wardex por ser um gênio da matemática, então dá para supor que os aliens o prepararam de propósito para infiltrá-lo lá dentro.

Margaret “desperta” no mesmo dia em que ele foge com o arquivo, coincidência demais para ser coincidência, o que sugere um plano coordenado com Hugo, mesmo que indiretamente.

Mas a “necessidade” de Margaret no grande esquema se resume ao fato de ela trabalhar em uma emissora local, algo que não tem relação nenhuma com a abdução na infância. Os poderes dela nem são usados na transmissão final, a não ser para religar a energia da estação.

Hugo acredita que os aliens vieram espalhar empatia e iluminação pela humanidade, e que os dois estavam destinados a revelar a verdade. Como nunca ouvimos o que o alienígena diz no final, tudo fica no campo da fé.

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