Por Equipe JK

– Adaptar um clássico da literatura infantojuvenil como O Gênio do Crime para as telas já é, por natureza, uma tarefa delicada. Quando esse clássico tem mais de cinquenta anos, é lido em escolas por gerações e carrega o peso afetivo de quem cresceu com ele, o desafio é redobrado. 

Publicado , a adaptação da obra chegou aos cinemas com um desafio adicional: atualizar a história para os tempos atuais, deslocando a narrativa para o contexto da Copa do Mundo de 2026. 

Para cumprir essa missão, o filme opta por escolhas inteligentes, substituindo a clássica figurinha rara de Rivelino pela de Vini Jr. e modernizando elementos que, em pleno final dos anos 1960, faziam sentido, mas soariam datados hoje. É uma decisão corajosa, e o filme a executa com muito mais acerto do que erro.

Dirigido , com produção de Tiago Mello e fotografia de Pedro Sotero — equipe cujos trabalhos anteriores vão de Bacurau a O Agente Secreto —, o projeto deixa claro que o cinema infantojuvenil aqui não está sendo tratado como segundo escalão.

A turma que parece ter saído do livro

O maior acerto do filme está na própria Turma do Gordo e seus protagonistas. João, o Gordo (Francisco Galvão), Edmundo (Samuel Estevam), Pituca (Breno Kaneto) e Berenice (Bella Alelaf) constroem uma dinâmica de amizade que é, disparado, o coração do filme. 

Cada uma das crianças parece ter saído diretamente das páginas do livro, não apenas pela reprodução fiel dos personagens originais, mas também pela preservação do espírito que os tornava tão cativantes.

O ritmo entre eles é natural, as afinidades parecem reais e o prazer de acompanhar esse quarteto numa investigação pelas ruas de São Paulo é genuíno. É o tipo de elenco jovem que dá vontade de fazer parte da turma.

Já as sequências de investigação e perseguição pelo centro de São Paulo são o melhor do filme em termos de execução: dinâmicas, bem fotografadas e com uma energia que captura exatamente o espírito de aventura que a obra original sempre prometeu. 

O elenco adulto acompanha bem esse ritmo, com destaque para Marcos Veras como Mister Mistério, que nessa versão deixa de ser o escocês excêntrico do livro para se tornar um brasileiro nato — escolha que funciona muito bem, especialmente nas mãos de Veras, que parece ter se divertido genuinamente com o papel.

As mudanças que não funcionam

As atualizações feitas pelo roteiro são, em sua maioria, pertinentes e bem resolvidas. A escala do prêmio foi ampliada e, em vez das onze camisas do time, agora está em jogo uma viagem para a final da Copa; Berenice entra na história bem antes do que no livro e o Gênio do Crime ganha, pela primeira vez, uma motivação real além da vilania genérica. Além disso, elementos que soariam datados foram discretamente descartados.

A motivação do Gênio do Crime, entretanto, é também o ponto mais frágil. A intenção de dar profundidade a um personagem que no livro era pouco mais que uma ameaça abstrata é válida, mas a solução encontrada pelo roteiro não convence. Ela é fraca, pouco articulada com o restante da história e tira parte da tensão que o antagonista deveria sustentar. 

Há ainda um outro ponto negativo difícil de ignorar. Apesar de ser bem-sucedido em transportar adultos para um universo lúdico e em apresentar a turma do Gordo para uma nova geração com cuidado e respeito pelo material original, falta ali aquele “quentinho no coração” que as melhores obras audiovisuais infantojuvenis brasileiras conseguem provocar.

Essa capacidade de mergulhar o espectador no mundo visto pelos olhos das crianças de uma forma que vai além do entretenimento e chega num lugar mais sensorial e afetivo — extremamente bem executado pelas obras do MSP Estúdios nos últimos anos, como foi em Chico Bento e A Goiabeira Maraviósa e as sequências de Turma da Mônica Laços e Lições — não existe aqui.

O filme diverte, emociona pontualmente e cumpre bem o que promete, mas não chega a esse lugar mais fundo que é justamente o que encanta nessas obras. 

Vale a pena assistir?

O Gênio do Crime é um filme para toda a família, sem ressalvas: quem leu vai reconhecer os personagens com carinho, quem não leu vai querer conhecer o livro. O cinema brasileiro tem, aqui, uma adaptação feita com competência, cuidado, respeito e muita coragem de mexer em uma obra tão querida no imaginário popular. 

Ainda que não seja a maior ou melhor obra do cinema para jovens, ele cumpre seu papel de forma honesta e é um bom divertimento para uma tarde em família.

O Gênio do Crime está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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