Por Equipe JK

– Jordana Brewster compartilhou uma revelação pessoal durante uma conversa de uma hora na sexta-feira passada, como parte da iniciativa Women in Motion, promovida pela Kering em parceria com a Variety. O evento aconteceu em uma suíte privada do Hotel Carlton, durante o Festival de Cannes, e tivemos o privilégio de participar a convite da organização.

A atriz, conhecida por interpretar Mia Toretto, fez sua estreia no icônico tapete vermelho do Festival na noite de quarta-feira, na sala do Grand Théâtre Lumière. Ela estava acompanhada , Michelle Rodriguez e Meadow Walker, filha do falecido Paul Walker, para a sessão de aniversário de Velozes & Furiosos.

Durante a conversa de sexta-feira, Jordana revelou que, após escrever em inglês, percebeu que sua voz autêntica era em português. Essa descoberta a levou a embarcar em um projeto autobiográfico que vem desenvolvendo desde os quarenta anos. A revelação de Jordana ocorre em um momento em que o cinema brasileiro está vivendo sua maior fase internacional em décadas.

Aos quarenta e seis anos, com uma carreira repleta de sucessos em Hollywood, Jordana Brewster alcançou um marco significativo ao escrever seu primeiro roteiro de longa-metragem. Ao contrário de muitos atores que prometem tal feito, Jordana concretizou sua visão, criando um filme original ambientado no Brasil.  A história, quase autobiográfica, inicialmente foi concebida em inglês, mas Jordana logo percebeu que o português era a língua ideal para transmitir a essência da narrativa.

Essa revelação inédita veio à tona durante uma entrevista, onde Jordana abordou diversos tópicos, principalmente relacionados à franquia Velozes e Furiosos (ou Velocidade Furiosa, em Portugal). Apesar da presença de veículos internacionais, a importância dessa revelação pode ter passado despercebida, já que éramos os únicos representantes de língua portuguesa na mídia presente.

Esta é a primeira vez que Brewster fala publicamente sobre o conteúdo do projeto. Dois dias antes, em um café no terraço do mesmo Carlton, ela mencionou brevemente a existência do roteiro à jornalista Rebecca Rubin, da Variety, em uma linha solta que registrou que a atriz “tinha terminado seu primeiro roteiro de longa-metragem”.  Nada mais foi dito. No entanto, durante a conversa com Angelique Jackson, que conduzia o talk, e toda a imprensa credenciada presente, a atriz revelou que o projeto está saindo da gaveta e tem o Brasil como foco.

Vale lembrar quem está falando. Jordana Brewster, nascida na Cidade do Panamá em 1980, tem uma herança fascinante. Sua mãe, Maria João Leal de Sousa, é uma modelo brasileira que fez história ao ser a única brasileira a estampar a capa da Sports Illustrated Swimsuit Issue em 1978, fotografada na Bahia. Seu pai, Alden Brewster, é um banqueiro de investimentos americano e neto de Kingman Brewster Jr., que presidiu a Universidade de Yale entre 1963 e 1977. Aos dois meses de idade, Jordana se mudou para Londres, onde passou seis anos antes de se mudar para o Rio de Janeiro aos seis. Aos dez anos, ela deixou o Brasil e se estabeleceu em Manhattan, onde estudou na escola católica feminina Convent of the Sacred Heart antes de ingressar na Professional Children’s School. Mais tarde, formou-se em Literatura Inglesa em Yale em 2003, uma credencial que, embora pouco explorada durante boa parte de sua carreira de atriz, agora assume grande importância. Essa mistura única de herança brasileira pelo lado materno e intelectual pelo lado paterno explica muito as decisões anunciadas pela atriz para seu primeiro roteiro autoral no cinema.

Vale ressaltar que os quatro anos que Jordana passou morando no Rio de Janeiro, entre os seis e dez anos de idade, não foram apenas uma viagem turística da infância.  Esse período foi crucial para a formação do seu sotaque na língua nativa, mesmo que ela não a usasse com tanta frequência nos trinta anos seguintes.  Em todos os lugares que Jordana morou depois — Nova York, Yale, Los Angeles e Santa Barbara —, o português, especialmente quando falava com a mãe, sempre foi a língua predominante.  A atriz já mencionou isso diversas vezes na mídia e até usa a bandeira brasileira em sua bio do Instagram, com a bandeira americana logo em seguida (mas a brasileira sempre vem primeiro).

Em casa, o português sempre foi a língua falada. Em uma entrevista de 2009 a um veículo brasileiro, Brewster, então com vinte e nove anos, falou em um português fluente, embora um pouco hesitante, sobre a saudade que sentia de Angra dos Reis: das ilhas, da baía e das casas de praia ao sul da cidade. Ela expressou o desejo de que seus filhos aprendessem português para não perderem a conexão com o Brasil.  Esse tipo de vínculo, que uma diáspora pode manter, é caracterizado por um bilinguismo intermitente e um apego sentimental permanente. Hoje, dezessete anos depois daquela conversa, ela está prestes a transformar esse elo em uma obra.

Santa Barbara e os cadernos

A decisão de Brewster de investir na escrita de roteiros, após uma carreira de sucesso como atriz em Hollywood, pode ser atribuída a uma mudança geográfica e a uma rotina pouco conhecida fora de seu círculo íntimo. Aos quarenta anos, ela deixou Los Angeles e se mudou para Santa Barbara, no litoral norte da Califórnia. Em entrevista em Cannes, Brewster descreveu a cidade como um lugar com um clima de comunidade, relaxado, onde as pessoas se dedicam a atividades diversas. Essa mudança proporcionou a ela uma nova perspectiva, fazendo com que seu retorno a sets ou festivais como Cannes fosse recebido com entusiasmo, em vez de ser visto como algo rotineiro.

Foi em Santa Barbara que Brewster começou a explorar a escrita. Ela passou a entrevistar autores em eventos públicos na Universidade da Califórnia em Santa Barbara (UCSB) e na livraria local Godmothers, em Summerland. Esses espaços se tornaram seu laboratório literário. Brewster começou a opcionar livros para adaptação, a estudar o ofício e a fazer pitches por conta própria. Ela expressou sua paixão por se aprofundar em temas e tomar notas, descrevendo isso como um exercício mental diferente, que ela ansiava por desenvolver, pois sempre esteve presente em sua vida. Brewster também explicou seu desejo de se envolver em múltiplos projetos simultaneamente, afirmando que os atores precisam de desafios adicionais para evitar o tédio.

Em 2023, a atriz deu uma entrevista à revista The Retaility, onde revelou que vinha estudando com Jack Grapes, renomado poeta, dramaturgo, ator e professor norte-americano. Grapes é conhecido por criar o Method Writing, um processo criativo que Brewster vinha explorando em aulas online. Ela descreveu essas aulas como experiências íntimas, onde compartilhava aspectos profundamente pessoais de sua vida com um grupo de vinte pessoas. Essa abertura e coragem de se expor na escrita provavelmente serviram como preparação para seus empreendimentos futuros.

Surpreendentemente, a dedicação de Brewster à escrita vai além de um interesse passageiro de uma diletante de Hollywood. Ela vem construindo ativamente uma rede de criadoras mulheres ao seu redor. Frankie Shaw, atriz e roteirista conhecida por criar a série SMILF para a Showtime, foi sua mentora por anos. Atualmente, Brewster colabora com Molly Rosen, do Brooklyn Writers Collective. Ela também citou Pamela Adlon, criadora de Better Things, como uma grande inspiração. Além disso, Brewster tem uma amizade próxima com Catherine Reitman, criadora da série canadense Workin’ Moms, que mora em sua vizinhança em Santa Barbara. Elas até colaboraram em um projeto há seis meses, quando as coisas estavam um pouco mais lentas. Brewster também mencionou Angela Robinson, diretora do filme D.E.B.S. (2004), no qual contracenou com Sara Foster. Além disso, ela trabalhou em pelo menos um projeto que quase se concretizou, mas acabou não se concretizando.

Quando perguntada sobre suas principais referências, Brewster mencionou os filmes de 2024 e 2025 que mais a marcaram: “Nightbitch”, de Marielle Heller, e “If I Had Legs I’d Kick You”, de Mary Bronstein. Ambos os filmes oferecem uma visão crua e honesta da maternidade, escritos por mulheres de mais de quarenta anos sobre mulheres de mais de quarenta anos, assim como a própria Brewster. Durante a conversa, ela até expressou seu desejo de ver um spin-off de “Velozes e Furiosos” que se concentre na criação dos filhos dos Toretto.  É um gênero, mas também é uma comunidade.

Projeto “meio autobiográfico”

Ao ser questionada sobre o estágio do projeto, Brewster revelou informações importantes e inéditas. Ela confirmou que já está em conversas com pessoas da indústria e que o filme se passa no Brasil.  Esta é a primeira vez que Brewster conecta publicamente esses três aspectos do projeto.

Ela não pretende dirigir o próprio filme. Expressa um profundo respeito , atrizes que migraram com sucesso para a direção, mas admite que sua natureza introvertida a tornaria inadequada para gerenciar um set. (“Meus filhos já são suficientes.” Ela acredita que seria ideal encontrar uma diretora mulher com quem pudesse colaborar de perto. Como possível parceira na direção deste projeto, ela cita Emerald Fennell, a diretora britânica de Promising Young Woman e Saltburn, como seu sonho de colaboração — “em qualquer função! Eu adoro o humor britânico”. Ela não mencionou nenhuma diretora brasileira, mas a vaga está aberta, e o cinema brasileiro tem, atualmente, uma geração de diretoras (Anna Muylaert, Petra Costa, Susanna Lira, Caru Alves de Souza, entre outras) trabalhando em territórios temáticos que se alinham diretamente com o material que ela pretende levar à tela.

Perto do fim do talk, Brewster compartilhou uma reflexão filosófica que talvez seja a melhor justificativa para o filme que está prestes a realizar: “Quero escrever algo verdadeiro — e por verdadeiro, quero dizer: quanto mais específica a narrativa, mais universal ela se torna. Mais as pessoas se conectam com ela. Porque todos nós compartilhamos temas semelhantes em nossas vidas.” Aos quarenta e seis anos, após vinte e cinco anos interpretando Mia Toretto, a atriz decidiu finalmente criar uma personagem feminina mais específica e próxima de sua própria realidade e verdade do que qualquer Mia poderia ter sido. Talvez por isso a história se passe no Brasil e seja contada em português. É daí que vem a especificidade. É daí, segundo sua própria fórmula, que surgirá a conexão com o universal.

Oportunidades e o momento atual do cinema brasileiro

A decisão de Brewster ocorre em um momento crucial para o cinema brasileiro. Em março de 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, uma vitória que mobilizou o país inteiro e devolveu ao cinema brasileiro um lugar na conversa global que vinha sendo perdido. Dois meses depois, aqui em Cannes, no ano de 2025, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, levou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator (para Wagner Moura). Antes disso, em fevereiro de 2025, “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, havia conquistado o Urso de Prata em Berlim.

Em 2025, o audiovisual brasileiro alcançou um marco histórico, com investimentos de 1,41 bilhão de reais, conforme dados oficiais divulgados pela delegação brasileira no Marché du Film em Cannes.  Durante o festival, tivemos a oportunidade de conversar com a delegação em visitas recorrentes ao stand do Brasil.  Além disso, 367 filmes brasileiros estrearam nas salas de cinema do país, atraindo mais de 11 milhões de espectadores, segundo a Ancine.

A 79ª edição do Festival de Cannes mantém a presença brasileira, mesmo sem um longa nacional na competição principal.  O filme americano “Paper Tiger”, dirigido , concorre à Palma de Ouro com coprodução da RT Features, empresa do produtor Rodrigo Teixeira, responsável por “Ainda Estou Aqui” e “Me Chame pelo Seu Nome”.  Na Quinzena dos Realizadores, o filme chileno “La Perra”, dirigido , conta com Selton Mello no elenco em uma coprodução chileno-brasileira.  Em Un Certain Regard, “Elefantes na Névoa” tem produção das brasileiras Bubbles Project e Enquadramento Produções.  Já a Semana da Crítica selecionou “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, uma coprodução com a pernambucana Desvia.  No Marché du Film, oitenta empresas brasileiras buscam atrair novos negócios e compartilhar histórias tipicamente brasileiras com o mundo.  A história de Jordana Brewster pode ser uma delas.

Em 2026, o Brasil apresenta um novo plano para projetar e manter sua relevância nos próximos dez anos. A Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Oliveira Gonzaga, revelou o plano nesta sexta-feira em Cannes, juntamente com recursos públicos de fomento ao cinema e à produção cinematográfica em volume recorde. O plano futuro inclui isenções fiscais para coprodução, produtoras brasileiras com experiência em Cannes, distribuidoras abertas a projetos com nomes reconhecidos na Europa e nos Estados Unidos e uma abundância de talentos Made in Brazil. Essa estrutura é ideal para um filme americano-brasileiro escrito por uma atriz internacional com herança e fortes laços com o Brasil.

Em meio à euforia da temporada de prêmios e dos principais festivais de cinema mundiais, um público brasileiro e estrangeiro redescobriu o cinema nacional.  Vale ressaltar uma distinção crucial que muitas vezes se perde: o cinema brasileiro tem uma relação histórica única com a sua audiência.  O reconhecimento da crítica internacional é uma coisa; a adesão genuína do espectador brasileiro comum, aquele que escolhe assistir a um filme nacional em sala de shopping na sexta-feira à noite em vez de um blockbuster norte-americano, é outra.  Esses dois fenômenos raramente se alinham.  “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, em 2002, foi um dos poucos exemplos em que isso aconteceu, conquistando tanto a crítica internacional quanto uma bilheteria expressiva no Brasil. “Tropa de Elite”, de José Padilha, em 2007, foi outro: tornou-se um fenômeno popular antes mesmo de ganhar o Urso de Ouro em Berlim, em 2008.  Após esses sucessos, o público brasileiro continuou frequentando os cinemas, mas em geral para assistir a comédias e franquias nacionais.  O chamado “cinema sério” (embora eu não concorde com o termo) perdeu espaço nas salas de cinema durante quase duas décadas.  Foi preciso esperar todo esse tempo para que esses dois fenômenos voltassem a se encontrar: “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, em pouco mais de um ano, conquistaram simultaneamente o aplauso da crítica internacional e lotaram as salas de cinema no Brasil. É nesse cenário específico — e a distinção é importante — que o roteiro de Brewster surge.

O que podemos afirmar sobre o projeto da atriz (que é formada em literatura pela Yale) é o seguinte: o roteiro existe e está sendo apresentado para a indústria pela própria atriz.  Ele surge em um momento em que tudo, no audiovisual brasileiro, parece ter se alinhado para receber um projeto como esse.

Após essa conversa no Carlton e sua passagem , Brewster segue para Montreal, no Canadá, para gravar a série da Prime Video, Bishop, criada , onde interpreta uma detetive chamada Pat.  Depois, retorna aos estúdios de Hollywood para gravar Fast Forever, o décimo-primeiro e último filme da saga, com estreia prevista para março de 2028.  Portanto, o roteiro brasileiro pode ter que esperar uma brecha na agenda lotada dela, e tudo o que mencionamos até agora está, por enquanto, à espera dessa oportunidade.

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