Por Equipe JK
José Aparecido Da Silva*
“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar”. (Fernando Pessoa)
Para estudiosos das teorias culturais do Amor três questões se sobressaem: 1) Qual é o papel da cultura no Amor? 2) O Amor é universal? e 3) O Amor manifesta-se de diferentes formas em diferentes culturas? Embora o Amor Romântico possa parecer algo muito natural para todos nós, muitos estudiosos têm constatado que ele parece uma invenção ocidental, não encontrada em outras culturas. Compartilham desta posição não só os psicólogos, estudiosos do comportamento que são, mas, também, antropólogos, sociólogos e historiadores que endossam a mesma concepção. Há estudos que sugerem que o Amor Romântico não existe em países não ocidentais, exceto, possivelmente, para a elite daquelas nações que tem tempo para cultivá-lo.
Em posição contrária, os psicólogos evolutivos argumentam que o Amor Compassivo é inato na natureza humana, sendo baseado em processos biológicos universais, aplicando-se às pessoas e a todas as coisas. Apaixonar-se pode rápido ou lento, intenso ou sutil, e disparado por inúmeros fatores. Estudiosos enumeram que alguns dos antecedentes do apaixonar-se são: gostar recíproco (O quanto duas pessoas se gostam?); aparência (O quanto alguém é atraído pelos atributos corporais de outra pessoa?); traços de personalidade (O quanto alguém é atraído pelos traços de outrem, como, por exemplo, pela inteligência, atenção, generosidade, humor etc., de outra?); similaridade (O quanto duas pessoas têm em comum, como, por exemplo, meio sociocultural, experiências, interesses e atitudes?), familiaridade (Quanto tempo duas pessoas ficam juntas?); influência social (Famílias de amigos, outras pessoas e redes sociais que aprovam/desaprovam um dado parceiro); preenchendo necessidade (Uma pessoa preenche as necessidades de outro e mostra carinhos e respeito por este? O parceiro faz a pessoa feliz? Acaba com o sentimento de solidão da outra pessoa? Manifesta alguma forma de apreciação do outro?); excitação (A pessoa vivencia fortes reações fisiológicas quando ela encontra um parceiro em potencial? Vivência batimentos cardíacos acelerados ou respiração ofegante?); prontidão (O indivíduo está pronto para um novo relacionamento ou contínua sofrendo com a perda de um relacionamento anterior?); isolamento (Duas pessoas sentem-se sozinhas quando juntas?); outros indícios (Há algo em uma pessoa que atraia outra em particular?).
Assim, como é possível observar, diferentes variáveis podem influenciar se duas pessoas irão se apaixonar ou não. Ainda que os resultados de variados estudos mostrem que o Amor Romântico seja quase universal no mundo, nós não podemos categoricamente concluir que cada pessoa irá se apaixonar alguma vez na vida. Estudos também nos revelam que, embora o Amor Romântico possa ser controlado por algumas variáveis culturais, ele nunca será inteiramente suprimido. Não é muito claro que as pessoas se apaixonam mais frequentemente quando sua sociedade desaprova o Amor Romântico, mas é plenamente possível que as pessoas se apaixonem mais ou menos frequentemente dependendo da organização social de sua cultura e ideologia. Assim considerando, a ênfase cultural dada a cada uma dessas variáveis pode fazer a diferença. Mas, a despeito da importância, do papel, das variáveis culturais, ambientais (sociais, educacionais, econômicas, entre outras) sobre o amor, particularmente sobre o amor romântico, podemos nos perguntar: Onde está no cérebro o Amor? O amor romântico, onde está? Acevedo (a qual tive a satisfação de conhecer na UCSB-USA) e colaboradores, num estudo intitulado “Neural correlates of long-term intense romantic Love”, publicado na revista SCAN (2012) 7,145-159, procuraram desvendar os correlatos neurais do amor romântico intenso e de longo prazo usando a técnica de imageamento de ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês). Para isso ela e membros da sua equipe requereram que dez mulheres e 7 homens, casados há em média 21,4 anos, fossem submetidos às imagens de fMRI enquanto visualizavam imagens faciais de seus parceiros.
As imagens de controle incluíam um conhecido altamente familiar; um amigo próximo e de longa data; e uma pessoa pouco familiar. Efeitos específicos para o parceiro intensamente amado e de longo prazo foram encontrados em: (i) áreas do sistema de recompensa rico em dopamina e dos gânglios da base, como a área tegmental ventral (VTA, na sigla em inglês) e o corpo estriado dorsal. Tais dados foram consistentes com resultados de estudos de amor romântico em estágio inicial; e (ii) várias regiões implicadas no apego materno, como o globo pálido (GP, também chamado de paleoestriado, é uma estrutura subcortical do cérebro que integra o telencéfalo), substância negra, núcleo da rafe, tálamo, córtex insular, cingulado anterior e cingulado posterior.
Correlações de atividade neural em regiões de interesse com os escores de questionários amplamente usados na área mostraram: (i) respostas VTA e caudadas correlacionadas com escores de amor romântico e inclusão de outros (valorização de outros) no ego (self); (ii) respostas do GP correlacionadas com pontuações de amor baseadas na amizade; (iii) respostas do hipotálamo e do hipocampo posterior correlacionadas com frequência sexual; e (iv) respostas no núcleo caudado, septo/fórnice, cingulado posterior e hipocampo posterior correlacionadas com escores de obsessão obtido nos questionários. No geral, os resultados sugerem que, para alguns indivíduos, o valor da recompensa associado a um parceiro de longo prazo pode ser sustentado, semelhante ao novo amor, mas também envolve sistemas cerebrais implicados no apego e na ligação entre pares.
Em suma, os dados de Bianca Acevedo e equipe (2012) mostraram que as respostas baseadas nas imagens de um parceiro amado e de longa data foram associadas aos sistemas cerebrais que foram identificados como sendo tão importantes como o ‘gostar’ das recompensas primárias. Além disso, os resultados mostraram ativação do GP posterior e insular do córtex em função de pontuações de amor baseadas na amizade. A ativação dessas regiões no contexto atual sugere aspectos do “gostar “ou “prazer” relacionados ao relacionamento com um dado parceiro. Portanto, o amor romântico, de alguma forma, ativa áreas muito especiais em nosso misterioso e enigmático cérebro. Ao fim e ao cabo, talvez, Freud tenha tido, ou mesmo, tenha razão mesmo numa sociedade complexa e com pressa.
Professor Titular Sênior da USP-RP*



