Por Equipe JK
Atenção: esta matéria contém spoilers do episódio final de The Boys.
Depois de cinco temporadas, The Boys chegou ao fim e deixou o público dividido entre alívio, tristeza e aquela vontade de discutir cada detalhe com quem também acompanhou a série.
A linha geral da reta final segue fielmente os quadrinhos originais de Garth Ennis e Darick Robertson. Porém, quando a gente olha de perto, a quantidade de coisa que mudou da HQ para a versão do Prime Video é enorme. E algumas escolhas alteram completamente o sentido da história.
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Capitão Pátria deixou de ser o “vilão por engano” da HQ
Talvez essa seja a diferença mais profunda das duas versões, e ela explica praticamente todas as outras. Nos quadrinhos, Capitão Pátria não é o vilão principal. Quem comanda os bastidores é o Black Noir, revelado como um clone secreto do próprio Pátria, criado pela Vought como plano B caso o original saísse do controle.
Cansado de esperar entrar em ação, o clone começou a cometer crimes em nome do Pátria, incluindo o ataque a Becca Butcher. Quando o Pátria descobre essa armação, é por isso que ele finalmente surta, vai à Casa Branca e tenta tomar o poder. Na HQ, ele morre nas mãos do próprio Black Noir, antes de Butcher dar fim ao clone.
Já a série apagou completamente essa reviravolta. O Black Noir do Prime Video nunca foi um clone, e o Capitão Pátria foi o vilão de verdade do começo ao fim, um homem instável, narcísico e profundamente traumatizado, e não o jovem arrogante meio caricato da HQ.

A morte do Capitão Pátria é muito mais humilhante na série
Aqui acontece uma das viradas mais marcantes do desfecho. Na HQ, o Pátria morre no calor da rebelião e da disputa contra o clone. Na série, o caminho é outro: Kimiko aparece como peça-chave da batalha final, usando um pulso radioativo (resultado dos experimentos do Soldier Boy) capaz de queimar o Composto V do sangue do vilão.
De um momento para o outro, o Capitão Pátria perde os poderes. E aí entra Butcher, com aquele pé de cabra que ficou marcado nos quadrinhos, terminando o serviço enquanto o ex-deus implora por misericórdia.
É um final muito mais cruel do que o da HQ. O homem que aterrorizou o mundo por anos morre choramingando, exposto na TV ao vivo, sem nenhuma das certezas que o sustentavam.

Butcher: o motivo do “estouro” é diferente
Tanto na HQ quanto na série, Billy Butcher tenta usar o vírus que mata Supes mesmo depois de derrotar o vilão. Mas as razões para esse mergulho no abismo mudam. Nos quadrinhos, o que empurra Butcher para essa decisão é uma mistura de vazio e obsessão depois da morte do Pátria, como se derrotar o maior monstro do mundo ainda não tivesse sido suficiente.
Na série, o gatilho é diferente e bem mais íntimo. Ryan deixa claro que não quer mais nada com Butcher e o chama, de cara, de pessoa ruim. Logo depois, Terror, o cachorro de Butcher, morre dormindo.
Como cereja do bolo, Stan Edgar reaparece anunciando que vai retomar o controle da Vought e reconstruir o que ela já foi. Para um Butcher já corroído por anos de raiva e luto, essa combinação é o empurrão final.

A morte de Butcher: na série, ele quase desiste; na HQ, ele provoca
O encontro entre Butcher e Hughie virou o ponto-chave do final em ambas as versões, mas o tom é completamente diferente. Nas HQs, Butcher já matou Frenchie, Kimiko e Leitinho antes desse confronto, num arco bem mais sangrento. O embate acontece no topo do Empire State Building, e Butcher manipula Hughie até ele cravar uma faca no ex-mentor, sorrindo enquanto morre.
Na série, o cenário é a torre da Vought. Francês já tinha morrido nas mãos do Capitão Pátria, e Kimiko e Leitinho saem vivos. A briga entre Hughie e Butcher acontece, mas tem um detalhe doloroso: Hughie atira em Butcher no exato momento em que ele parecia apertar o gatilho do vírus.
Não há gozação, não há sorriso de despedida. Há um pedido silencioso de redenção que chega tarde demais. Kripke já tinha dito que a série não iria matar todos os Boys, porque entende que o público de televisão tem outro tipo de pacto com os personagens, e ele cumpriu o que prometeu.
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Profundo, Vought e o futuro que a HQ não tinha
Outras diferenças aparecem nas pontas. Profundo tem um final praticamente poético na série: morre pelos animais marinhos que tanto explorou, depois de perder absolutamente tudo.
Já nas HQs, ele é o único membro dos Sete a sobreviver até o fim e ainda aparece liderando um novo time chamado Verdade. É uma escolha que conversa com o quanto a versão da série caprichou em tornar o personagem desprezível ao longo das temporadas.
Outra mudança importante: nas HQs, a Vought se desmancha pouco a pouco, e os super-heróis caem no esquecimento. Na série, é o contrário. Stan Edgar retoma o comando da empresa e deixa o caminho aberto para mais histórias, algo que claramente serve de gancho para o spin-off Vought Rising. Em vez de fechar o universo, o Prime Video manteve a porta entreaberta.

Hughie, Luz-Estrela e um final que a HQ não viu chegar
As HQs terminam com Hughie aceitando comandar o Bureau de Assuntos Supes da CIA, prometendo fazer diferente do que Butcher fez. Na série, é o oposto: Hughie recusa o convite para liderar o órgão e escolhe a vida tranquila ao lado de Annie.
Os dois aparecem tocando uma loja de áudio e vídeo, num retorno bonito ao que era a vida de Hughie no piloto. E tem mais: a série revela que Luz-Estrela está grávida, detalhe que não existe nas HQs.
É um ideia claramente pensado para deixar o público em paz, e que reforça a tese central da adaptação de Kripke, a de que sobreviver é, no fim das contas, uma forma de resistência tão importante quanto qualquer ato heroico.
Todas as temporadas de The Boys estão disponíveis no Prime Video.
