Por Equipe JK

ATENÇÃO: ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS DA 2ª TEMPORADA DE DEVIL MAY CRY.

A 2ª temporada de Devil May Cry estreou nesta terça-feira (12) na Netflix com 8 episódios, animação mais elegante que a primeira leva e uma confiança enorme no próprio material, tanto que o serviço já renovou a série para um terceiro ano antes mesmo da estreia.

O problema é que, depois de maratonar a temporada, fica difícil escapar de uma sensação ingrata: Adi Shankar acertou em quase tudo o que cerca Dante, e errou justamente em Dante.

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Dante perdeu todas as lutas (de novo)

O maior problema da temporada é estrutural. Dante, o caçador de demônios mais carismático dos videogames, não vence praticamente nada por conta própria. Apanha de Vergil em todos os encontros, leva uma espada cravada no peito em duas cenas distintas, depende da equipe formada com o irmão e com Lady para sobreviver às ameaças maiores.

Na primeira temporada, dava para relevar, Dante ainda era um novato, descobrindo os próprios poderes. Aqui, depois de 8 episódios, o personagem deveria estar em outro patamar. Não está.

Esse Dante sem agência é o pecado capital da adaptação. Nos jogos, ele é a força da natureza que entra rindo em qualquer arena e sai estiloso, com pizza na mão e classificação SSS no canto da tela.

Aqui, é o sujeito que precisa ser salvo no terceiro ato pelo irmão que deveria estar tentando matá-lo. A piada do “DMC sem Dante sendo empalado não é DMC” rendeu boas risadas, mas começa a ficar amarga quando vira regra.

A relação com Lady que ninguém pediu

Outro nó da temporada é o romance entre Dante e Lady. A construção é apressada, parece encaixada por compromisso narrativo e contraria o que a própria saga construiu ao longo de duas décadas.

Dante sempre foi o herói que se mantém solteiro por escolha, alguém que reconhece nas próprias entranhas demoníacas um risco para qualquer pessoa próxima, a letra de “Subhuman”, do trailer de Devil May Cry 5, vive justamente desse desconforto.

A versão da Netflix joga tudo isso fora. Em determinado episódio, Lady pergunta o que os dois devem fazer “nessas oito horas livres”, e dois minutos depois eles estão se beijando.

A química existe, mas a escrita não respira. Pior: o gesto enfraquece o próprio arco de Dante, porque transforma a motivação dele, antes a humanidade como um todo, herança direta do pai Sparda, em algo individual e doméstico.

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Arius é o grande achado da temporada

Se há um personagem que sai engrandecido por essa adaptação, é Arius. O vilão do esquecido Devil May Cry 2 (2003), tratado por boa parte da comunidade como o pior título da franquia, volta aqui completamente reinventado.

Manipulador, sociopata, motor de uma trama corporativa que cruza guerra fria entre humanos e Makaians, Arius é o melhor antagonista que a série já apresentou. A escolha de torná-lo um homem em reencarnação constante, alimentando o próprio ciclo até alcançar o objetivo, é simplesmente brilhante.

Pelo menos nesse ponto, Shankar foi corajoso. Pegar um personagem que ninguém defenderia e transformá-lo em peça-chave é o tipo de jogada que justifica metade da temporada.

Resta, porém, o lamento de quem esperava Lucia, a coprotagonista feminina de DMC 2, ela aparece de relance, talvez como um clone, e some sem deixar marca. Para um anime que adapta o segundo jogo, deixar Lucia na poltrona é um erro que beira o desrespeito ao material.

Veredito

A 2ª temporada de Devil May Cry não é ruim, é frustrante de um jeito específico, do jeito que só uma adaptação afastada da essência consegue ser. Quem nunca jogou os títulos da Capcom provavelmente vai se divertir mais.

Quem cresceu com a franquia talvez saia da maratona com a sensação de ter assistido a uma versão fanfic competente, com boa animação e ótimos vilões, mas que continua sem entender o que faz Dante ser Dante.

Nota: 7/10.

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